Diabetes: o que fazer para prevenir complicações
A diabetes é a primeira causa de cegueira e de amputações. Em causa está a alteração do metabolismo da glicose que está na origem da diabetes e que pode ter consequências a vários níveis, muitas vezes sem que surjam sintomas.
As complicações dela resultantes, refere a Associação Protetora dos Diabéticos de Portugal (APDP), podem afetar os vasos sanguíneos pequenos – como os que irrigam os olhos, rins e nervos – ou os vasos sanguíneos grandes – com consequências para o cérebro, coração e membros inferiores. Mas existem, também, problemas resultantes da interação de várias alterações (da circulação sanguínea, nervosas e outras), como o pé diabético e a disfunção erétil.
Manter a diabetes sob controlo é o primeiro passo para prevenir qualquer tipo de complicações. Para isso, deverá, além de manter um estilo de vida adequado, visitar regularmente o médico para vigiar a glicemia, a tensão arterial e as gorduras (lípidos) no sangue, bem como os órgãos mais sensíveis. Mas, em alguns casos, existem outras medidas que podem fazer a diferença.
1.Pé diabético
Responsável pela maioria das amputações em Portugal, é, segundo a APDP, uma das complicações mais frequentes da diabetes: 25% das pessoas com a doença tem condições que aumentam o risco de pé diabético.
Resulta, por um lado, da aterosclerose (acumulação de placas de gordura e outras substâncias nas artérias), que dificulta a circulação sanguínea para as extremidades e, assim, o aporte de oxigénio aos tecidos, que ficam debilitados e demoram mais a cicatrizar quando há feridas (úlceras), podendo haver morte dos tecidos (necrose).
Por outro lado, também decorre da neuropatia (degeneração dos nervos), visto que a diabetes acelera a destruição dos neurónios que transportam informação para os pés, com perda de sensibilidade dos pés.
Como prevenir
- Se sofre de diabetes, faça uma avaliação anual dos pés com o seu médico/enfermeiro. Ser-lhe-á atribuída uma classificação de risco baixo, médio ou alto.
- Diariamente, lave os pés com água tépida (lembre-se que a sua sensibilidade pode estar diminuída), usando um gel ou sabonete de pH neutro.
- Seque bem os pés, passando a toalha entre os dedos: se estiverem húmidos, a sua pele tornar-se-á mais fina e, por isso, mais sensível.
- Recorra a um algodão ou a uma gaze para passar vinagre de cidra/maçã nas unhas e na pele, de forma a prevenir o desenvolvimento de fungos e/ou bactérias.
- Observe regularmente os seus pés, certificando-se de que não tem nenhuma ferida.
- Use meias de lã ou de algodão sem costuras nem elásticos.
- Opte por calçado com 1 centímetro a mais para além do dedo mais comprido e que seja alto e largo, para não existir pressão na parte lateral dos dedos. A parte do calcanhar deve ser firme e o dorso alto e deve apertar com cordões ou fecho de velcro ajustável na zona do tornozelo. Certifique-se de que, enquanto caminha, o pé não desliza dentro do sapato e de que não sente nenhum ponto de pressão.
- Se usar saltos, estes devem ter, no máximo, 2 a 4 centímetros de altura.
- Se lhe foi conferido risco médio ou alto, o sapato deve ser fundo e ter palmilha amovível, para a substituir por uma adaptada ao seu pé, que evite pressão excessiva na planta do pé.
2.Retinopatia diabética
A diabetes é a primeira causa de cegueira em Portugal, o que se explica por acarretar risco acrescido de problemas da visão como o glaucoma, as cataratas e, em particular, a retinopatia diabética, uma das principais causas de perda grave de visão a nível mundial.
Na sua origem estão alterações nos pequenos vasos sanguíneos da retina, no interior do olho, que surgem como consequência do aumento dos níveis de açúcar no sangue. O problema é assintomático até que os danos atingem a mácula (zona da retina responsável pela visão central), podendo nesta fase surgir visão turva ou desfocada, sensação de moscas volantes e/ou perda súbita da visão.
Como prevenir
- Faça regularmente o controlo metabólico da diabetes, de forma a manter nos valores desejáveis os níveis de glicemia, lípidos e a tensão arterial.
- Anualmente, faça um exame oftalmológico, para que o oftalmologista observe o fundo do olho após dilatação (oftalmoscopia) e possa detetar a retinopatia diabética precocemente.
3. Nefropatia diabética
A sujeição das artérias a níveis elevados de glicemia provoca, ao longo dos anos, danos nos nefrónios – unidades funcionais dos rins que têm um papel na filtração do sangue e na formação da urina. Se coexistirem com hipertensão e outros fatores de risco da diabetes, esses danos são ainda mais graves.
Uma vez que, no início, a doença renal não tem sintomas, o primeiro sinal que permite identificar a nefropatia, informa a APDP, é a existência de pequenas quantidades da proteína albumina na urina. A sua presença indica que, devido às lesões nas paredes das artérias, estas não conseguem impedir a sua saída.
Em fases avançadas, a doença renal pode manifestar-se através de inchaço das pernas e pés.
Nos casos mais graves, a nefropatia pode culminar em insuficiência renal: o rim deixa de ser capaz de realizar a sua função de purificação do sangue, sendo necessário recorrer à hemodiálise.
Como prevenir
- Anualmente, faça análises à urina para analisar a Taxa de Filtração Glomerular- TFG – quantidade de líquido que o rim produz por minuto, que varia em função do sexo, idade e superfícies corporal) e a albuminúria (presença de albumina na urina, que deve ser inferior a 30 mg na urina de 24 horas). Quanto mais diminuída estiver a TFG e mais elevada a albuminúria, mais comprometida está a função do rim.
- Se o resultado da albuminúria for negativo, deve repetir o teste após um ano; se for positivo, deverá repeti-lo 3 a 4 meses depois. Se, no segundo teste os valores tiverem normalizado, fará avaliação após um ano.
4. Hipertensão arterial
É duas vezes mais comum em pessoas com diabetes e, segundo a APDP, no momento do diagnóstico da diabetes já existe em cerca de 40% das pessoas, o que sugere uma relação recíproca: a obesidade e a resistência à insulina conduzem à hipertensão arterial que, por sua vez, agrava a intolerância à glicose.
A hipertensão agrava o risco de doenças cardiovasculares (enfartes do miocárdio, acidente vascular cerebral – AVC –, doença dos membros inferiores) e os problemas das artérias de menor dimensão que decorrem da diabetes, principalmente a nefropatia diabética. Por isso, os valores de pressão arterial recomendados para quem tem diabetes são inferiores aos da população em geral.
A hipertensão sistólica isolada (elevação apenas da pressão arterial máxima) é mais frequente em quem tem diabetes, acarretando maior risco de complicações cardiovasculares, sobretudo de Acidente Vascular Cerebral (AVC). Nos casos em que também existe lesão nos nervos, a pressão arterial é mais elevada na posição deitada, podendo diminuir muito na posição de pé (hipotensão ortostática).
Como prevenir
- Mantenha um peso adequado, adotando uma alimentação equilibrada e praticando exercício físico regularmente.
- Não fume.
- Meça a tensão arterial de 3 em 3 meses (se estiver controlada) ou 1 a 2 vezes por semana (se não controlada) e faça o controlo dos valores de glicemia no sangue e de albumina na urina.
- Aconselhe-se com o médico sobre a necessidade de recorrer a medicação para reduzir a tensão arterial.
5. Disfunção erétil
Segundo a APDP, a diabetes é a causa mais frequente de disfunção erétil, isto é, a incapacidade persistente em atingir e manter uma ereção suficiente para uma atividade sexual satisfatória.
Na sua origem podem estar:
- Complicações neurológicas – devido à ação dos níveis elevados de açúcar no sangue ao longo do tempo, os nervos penianos deixam de ser capazes de enviar estimulação ao cérebro.
- Alterações vasculares – surgem quando as artérias já não são capazes de deixar passar a quantidade de sangue suficiente para o pénis).
- Toma de medicação – alguns medicamentos, nomeadamente para a tensão arterial, podem causar disfunção erétil temporária.
Estas complicações só surgem, habitualmente após mais de 10 anos do diagnóstico e têm uma incidência de 30% a 50% nas pessoas com diabetes mal controladas. Para as evitar, é essencial manter sob controlo a diabetes e os seus fatores de risco, nomeadamente a hipertensão, associados a um aumento exponencial do risco.
Como prevenir
- Se fuma, deixe de o fazer; se não o faz, não comece a fazê-lo.
- Limite a ingestão de álcool.
- Pratique exercício físico regularmente.
- Aprenda a gerir o stress e a ansiedade.
- Durma, regularmente, cerca de sete a oito horas por noite.
- Visite regularmente o médico, de forma a manter nos valores desejáveis os níveis de glicemia, lípidos e a tensão arterial.
As complicações resultantes da diabetes podem ser sentidas a vários níveis, dado que esta patologia afeta os vasos sanguíneos pequenos e grandes, além de estar ligada a problemas resultantes da interação de várias alterações. Com o controlo adequado da diabetes aliada a alguns cuidados específicos é possível prevenir ou minimizar as complicações associadas a esta doença.





















