Tutoriais online ajudam a preparar pacientes
Avaliar o impacto de um tutorial online na preparação de adultos que iam submeter-se a uma artroscopia ao joelho foi o objetivo de um estudo realizado na Clínica Ortopédica Kerlan Jobe (Los Angeles) e publicado no The Journal of Bone & Joint Surgery. Os resultados revelaram que conduziu a um maior conhecimento e preparação no pré e no pós-operatório e a altos níveis de satisfação dos pacientes.
O método
Entre janeiro e junho de 2014, foram acompanhados dois grupos de pacientes que iam submeter-se a uma artroscopia ao joelho para diagnóstico primário de rotura do menisco. Ambos receberam o aconselhamento pré-operatório standard, mas o grupo de intervenção respondeu, além disso, a um tutorial multimédia que abordava temas relevantes de anatomia, patologia e instruções gerais relacionadas com a operação. O tutorial tinha a duração de 20 minutos e foi realizado antes da consulta pré-operatória. Nesta consulta, no dia da cirurgia e no final da primeira consulta pós-operatória, os pacientes responderam a questionários que avaliaram o seu grau de preparação e o seu nível de conhecimentos.
Os resultados
A análise das informações relativas aos 55 participantes (29 do grupo de controlo, 26 do grupo de intervenção) revelou que os do grupo de intervenção:
– Antes da cirurgia, estavam significativamente mais bem informados e tinham percebido melhor os riscos e benefícios da cirurgia e as alternativas à sua realização;
– Depois da cirurgia, estavam significativamente mais satisfeitos com a informação que tinham recebido; sentiam-se mais informados sobre a cirurgia e a reabilitação; tinham uma probabilidade significativamente maior de responder corretamente a questões sobre pormenores sobre a cirurgia.
Do laboratório para a clínica
Pode esta investigação servir de referência à prática clínica em Portugal? Manuel Gutierres, ortopedista, considera que sim: “Este estudo é importante porque os resultados são francamente positivos. Por isso, deve constituir motivo de reflexão sobre o tipo de informação que transmitimos habitualmente aos doentes. O seu nível de exigência de informação está a mudar de dia para dia e são frequentes aqueles que já nos consultam depois de minuciosas pesquisas online. Todos os intervenientes neste processo têm o dever de acompanhar esta evolução.” E reitera: “Os avanços permanentes no conhecimento médico são um desafio para os profissionais de saúde que procuram a excelência, mas também o são para os doentes que procuram os melhores cuidados de saúde para se tratar. É nossa obrigação disponibilizar todos os meios ao nosso alcance para os ajudar nesse sentido.”
Prós e contras
O ortopedista identifica vantagens para todas as partes envolvidas:
> Para o médico “É positivo que haja uma maior estandardização da informação disponibilizada ao doente, evitando dificuldades de comunicação e diminuindo o tempo gasto em cada consulta a prestar este tipo de informações, processo que é, sem dúvida, energy consuming. Nos Estados Unidos, este tipo de trabalho é geralmente efetuado por assistentes clínicos devidamente preparados e cujo objetivo é otimizar o tempo e rentabilizar o trabalho do cirurgião ortopedista. Em Portugal, a opção por um apoio administrativo mais efetivo ao médico, conducente a uma otimização de recursos, ainda não foi tomada por razões diversas.”
> Para o hospital ou clínica “Este tipo de informação online tem vantagens económicas e operacionais evidentes, podendo também ajudar a diminuir a ocorrência de erros e demoras em todo o processo. Também é importante ponderar as questões médico-legais e de responsabilidade médica, pelo que também nestas áreas há vantagens evidentes em informar adequadamente os pacientes.”
> Para os doentes “Como demonstram os resultados do estudo, aqueles que integram este tipo de inquéritos aparentemente revelam maior conhecimento e preparação para a cirurgia à qual vão ser submetidos, assim como acerca do período pós-operatório que se vai seguir. Conhecendo as possíveis complicações, podem aprender a identificar os sinais de alerta. Diminuirão, assim, os níveis de ansiedade relativamente à cirurgia, podendo consequentemente aumentar a confiança e motivação para uma melhor recuperação.”
Em relação a eventuais desvantagens, Manuel Gutierres reconhece que “as dificuldades pelas quais poderão passar doentes com baixo nível educacional” poderão “condicionar a adesão a este processo”, o que envolve riscos: “A relação médico-doente é um dos pilares do correto exercício da Medicina. A transferência da responsabilidade de informar para uma ferramenta online poderá acarretar um certo aligeirar do processo de comunicação e conhecimento mútuo que deverá estar subjacente ao ato médico.”
Realidade portuguesa
Em Portugal, “existem já muitos hospitais que recomendam aos seus doentes a consulta de sites com informação online sobre as patologias e procedimentos a que os doentes vão ser submetidos.” Exemplo disso é o site www.clinicajoelhoombro.com, criado pelo próprio Manuel Gutierres como auxiliar para a sua prática clínica. “Outros colegas”, salienta, “disponibilizam informações gerais sobre o tipo de exercícios que os doentes devem fazer no período pós-operatório imediato, assim como recomendações a adotar quando algo não corre bem.”
O ortopedista destaca, ainda, a implementação, em vários centros hospitalares, de programas de informação designados fast recovey, que visam “melhorar a informação que os doentes têm relativamente à anestesia, cuidados de enfermagem, técnica cirúrgica e posterior reabilitação.” O objetivo, “além de permitir altas mais precoces, é reduzir tempos de internamento, mas simultaneamente reduzir riscos para o paciente”. Segundo Manuel Gutierres, “no futuro estes programa poderão integrar módulos online criados com a mesma finalidade.”
Prof. Doutor Manuel Gutierres
Professor auxiliar da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
Chefe de Equipe de Ortopedia e Responsável pela Unidade de Ombro no Hospital de São João, Porto.
Membro fundador da Sociedade Portuguesa de Joelho.
Membro das secções de Joelho e Ombro da Sociedade Portuguesa de Ortopedia e da Sociedade Portuguesa de Artroscopia.











